O projeto de lei apresentado pelo deputado Raul Carrion não é nenhuma infâmia. Mas é, sim, completamente irrelevante. Abolir o uso de palavras em outras línguas nos documentos oficiais não deveria ser uma das principais prioridades do estado. Sempre é bom evitar o excesso de estrangeirismos, mas deveria ser por bom senso, e não por imposição legal. O projeto do Senhor Carrion, então, só é bem sucedido no que se propõe: garantir uns minutinhos na frente das câmeras e dos microfones.
Projetos em defesa da língua materna são comuns em outros países. E países de primeiro mundo. Porém, defesa não significa proibição, ainda mais numa época de globalização. Há 15 anos, a formação de uma aldeia global era inevitável. Hoje, ela é inegável. Ganhou, obviamente, a língua de quem mais produz conteúdo e tecnologia. A língua que ganharia de qualquer outro jeito, seja pelas etnias espalhadas pelo mundo, que tem no inglês sua língua oficial, seja pela força da indústria americana, que espirra a cada segundo mais produtos com rótulos em inglês.
Já estamos habituados aos termos anglo-saxões. Tentar traduzir “CD”, por exemplo, para “disco compacto”, e conseqüentemente para “DC”, não é uma maneira usual de defender nossa língua. Outras palavras também são intraduzíveis. Por incrível que pareça, existem outras línguas, além do inglês, no mundo. Elas também estão inclusas no projeto. Outro exemplo: a japonesa palavra “tsunami”. “Onda gigante” não tem o mesmo impacto, até porque o gigantismo tem significado ambíguo e subjetivo.
Está tão intrínseco em nossa rotina o uso de palavras de outras línguas, que algumas já estão em nossos dicionários. Apesar de terem sido aportuguesadas na escrita, Xerox, xampu, abajur, guichê, no meio de tantas outras, são tão estrangeiras quanto feedback, gay, mouse e happy-hour. A diferença é que as primeiras se fazem presentes por mais tempo do que as outras, nos dando tempo para adequá-las ao nosso idioma. Ou seja, a proibição de estrangeirismos também é uma freada violenta na evolução da língua, Desde os romanos, elas exerceram influência umas sobre as outras. Assim surgiu o próprio português.
O Marco Weissheimer, do RS Urgente, lembrou muito apropriadamente do personagem que dá nome ao livro “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”. Lima Barreto, no início do século passado, já alertava, irônica e melancolicamente, para os excessos de proteção à cultura brasileira, criando o personagem que, de tão nacionalista, defendia o uso do Tupi-guarani como idioma oficial. Indo a fundo, o português também nos deveria ser estrangeiro. Falamos português porque uma cultura mais forte sobrepujou outra mais fraca, os índios. Um caminho natural da humanidade.
Que me perdoe o Senhor Carrion, mas toda essa saliência e irrelevância foi feita pensando numa única palavra. A ironia é que ela é em inglês:
Mídia.
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