segunda-feira, 16 de junho de 2014
Quem disse que não teve hino?
Durante o jogo França x Honduras, primeira partida da copa em Porto Alegre, o sistema de som do Beira Rio decepcionou, e na transmissão oficial não se ouviu hino. Porém, a torcida não ficou sem o tradicional "La Marceillaise", o hino que remonta à Revolução Francesa, no século 18.
Reunidos atrás do gol, à esquerda da transmissão da TV, um grande grupo de torcedores franceses embalou o restante do estádio, que acompanhou e bateu palmas.
Confira o registro do repórter Andersson Catani, que estava no meio da torcida francesa:
"Às armas, cidadãos,
Formai vossos batalhões,
Marchemos, marchemos!
Que um sangue impuro
Banhe o nosso solo"!
O hino francês é uma marcha revolucionária. Logo, possui trechos agressivos, como este acima. Mesmo assim, é entoado a plenos pulmões pelos locais, sempre que possível. Aimée, torcedora que veio de Lorient para Porto Alegre para assistir sua seleção na copa, conta que os mais jovens não gostam da Marselhesa, mas que ela é um símbolo da seleção e ficou, depois do título francês em 1998, bastante identificada com o futebol.
Esta é mais uma das marcas na Copa 2014. Um traço que iniciou ainda na copa das Confederações, no ano passado, com os brasileiros cantando seu hino à capela, acabou incentivando os estrangeiros visitantes a fazer a mesma coisa.
Mundial começou, mas Porto Alegre ainda não está pronta
Estrangeiros e brasileiros concordam em uma coisa: a estrutura é boa, mas poderia estar melhor. Embora o Estádio Beira Rio impressione internamente, eu entorno apresenta falhas que podiam ter sido corrigidas não com mais recursos, mas com mais capricho.
O ponto-chave não são grandes reformas ou obras faraônicas. São buracos na calçada, cercas mal-instaladas e defeitos pequenos, que acabam chamando atenção de quem circula nos arredores. E acabam sendo fundamentais para construir a opinião de quem acredita que o Brasil poderá fazer fiasco.
Carlito e Luigi Silvestri, com suas experiências em outras copas, depõem que defeitos existiram em todo lugar. Nos Estados Unidos, em 1994, havia um galinheiro embaixo de uma das arquibancadas do estádio de Stanford. Na Alemanha, era impossível estacionar a menos de um quilômetro de qualquer estádio. Na África do Sul, as câmeras precisavam se reposicionar a todo momento para não fotografar a sujeira e as obras incompletas. No Brasil não é diferente.
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| Franceses treinam lá dentro, e funcionários assentam leivas de grama do lado de fora. |
Mas o que se vê na capital gaúcha é resultado mais de desleixo do que de falta de recursos ou tempo hábil. São coisas que poderiam ser feitas, e não foram. Enquanto a seleção francesa reconhecia o gramado dentro do estádio, para o jogo deste domingo contra Honduras, operários plantavam leivas de grama do lado de fora.
Quanto ao clima de copa, pouco se vê em Porto Alegre. A cidade segue sua rotina como se nada estivesse acontecendo. José Assim, taxista, afirma que em outros anos, quando a sede não era o Brasil, isso era diferente. “Em 2010 a copa era lá na África, e a Goethe estava toda enfeitada, os prédios tinham bandeiras do Brasil penduradas nas janelas. E neste ano, que a copa é aqui, nada disso aconteceu”, explica. “Acho que é porque desta vez o brasileiro ficou sabendo como é que tudo isso é feito. E tem bastante coisa que a gente não concorda”.
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| Símbolos da FIFA dividem espaço com as obras inacabadas. |
ADENDO: Um pessoal no site da Vang comentou que eu não analisei o "copo meio cheio" na matéria, e escrevi somente sobre o que há de ruim. É sobre isto que este texto se propõe: a analisar o que está ruim. De fato, a matéria diz que Porto Alegre não está pronta, e não que tudo está errado. Certamente, durante a copa, que iniciou há menos de uma semana, vamos escrever sobre as características positivas também. Embora as grandes emissoras de televisão já se foquem nisso o suficiente. Mas se alguém sentiu falta de elogios, o estádio ficou lindo. Maravilhoso. Um pitelzinho. Olha aí:
A invasão estrangeira: opiniões de quem enxerga de fora para dentro
Leonardo Carcamo é hondurenho e veio ao Brasil junto com seus pais, José e Gina, e seu irmão Carlos, para prestigiar sua seleção. Honduras nunca venceu uma partida nas outras participações em Copas do Mundo. Jogará neste domingo contra a França, no Beira Rio. Leonardo e sua família estão confiantes.
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| Leonardo, Jose, Andersson, Gina e Carlos. |
Eles chegaram ao Brasil por São Paulo, e lá presenciaram a abertura da copa sem entrar no estádio. Não conseguiram ingressos, eles me contam. Depois, vieram para o Rio Grande do Sul, de onde conhecem, especificamente, o churrasco e a nossa proximidade com a Argentina. Leram alguma coisa na internet também sobre os imigrantes, e que por aqui tem bastante alemão, italiano e polaco. Tudo verdade. Estavam no estádio, na manhã deste sábado, os quatro, tentando encontrar ingressos para a partida de Honduras. Não encontraram um voluntário que falasse sua(s) língua(s), então os ajudei. “Looking for tickets”? Yes. “Come over here”. OK. E assim por diante. Leonardo me contaria depois que moram em Chicago, Estados Unidos, mas que o inglês é ensinado nas escolas de Honduras tanto quanto o espanhol, e que existe um departamento (como eles chamam as unidades federativas de lá, equivalentes aos nossos estados) do país que já adotou o inglês como língua oficial.
Fomos almoçar juntos, os cinco. Eu comi um sanduíche do Mcdonalds. Eles me pediram porque eu não comia “brasilian food”. Disse-lhes que já estava acostumado com comida brasileira, que por aqui chamamos simplesmente de “comida”, mesmo. Feijoada com laranja e couve refogado, foi o que Gina e Jose escolheram. Tiraram até foto do restaurante. Leonardo e Carlos devoraram uma macarronada e, de sobremesa, um croissant com chocolate. Lhes indiquei uma boa churrascaria para que experimentem o “tchurraco” que eles tanto ouviram falar. E tentei ensinar Gina a dizer “churrasco” de maneira correta, mas não obtive sucesso. Além de nossa comida típica, eles também conhecem Gisele Bündchen. Mas para Leonardo, ela não é uma das Top Models mais conhecidas do mundo. É a “esposa do Tom Brady”, um dos mais carismáticos jogadores de Futebol Americano. Por lá, ele é o mais famoso do casal.
Entrevistei Leonardo para a Vang FM. É sempre bom saber o que os estrangeiros acham de nós. Infelizmente, o que ouvi dele não foi agradável. “Por ser uma estrutura de copa do mundo, acreditávamos que estaria melhor. Sabemos que o povo brasileiro se esforçou, mas ainda há muito coisa inacabada”, ele avalia. “Nossos políticos sul-americanos, nós conhecemos bem. Não quero usar a palavra ‘corruptos’, então digamos que eles sejam meio lentos. Mesmo assim o Brasil fará uma excelente copa”, opinou. Sobre o povo brasileiro, Gina e José foram mais gentis. “São bastante hospitaleiros. É a imagem que temos da maioria”, diz ela. “Por onde fomos, parece que sempre estiveram se esforçando para nos fazer se sentir em casa”, complementa ele.
Nos Estados Unidos, eles leram sobre a morte de Fernandão. Fizeram questão de fotografar o local de homenagens ao ídolo colorado. Também conhecem D’Alessandro. Leonardo inclusive conversou com ele, quando encontrou o jogador caminhando em um calçadão em Miami. Aos poucos, foi se familiarizando com o Inter. Confesso que muito por minha insistência em conversar sobre o time. Depois do almoço, já queria comprar uma camiseta colorada. Tomara que leve boas recordações do Rio Grande do Sul, e esqueça das nossas mancadas.
Assim como todos os estrangeiros que nos visitarem.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Vinte centavos
O Brasil devia
mudar seu nome para Paradoxo. Não haveria maiores incômodos em nos tornarmos
todos “cidadãos paradoxenses”, e condiria muito mais com nosso estado de
espírito enquanto nação.
Porque o nosso
povo é mesmo um brutal paradoxo. Somos diariamente saqueados pela maioria dos
representantes de nossa classe política. Aguentamos os desmandos de uma elite
que converge a totalidade de seus esforços em benefício próprio. Estamos à
mercê de acontecimentos alheios à nossa vontade e interferência, mesmo que seja
em nossos olhos que eles vão arder. A mídia dominante do país empurra goela
abaixo da população o que ela deve dizer, ouvir, ler e pensar, e precisamos
tomar aquilo como verdade absoluta, sob pena de nos desvirtuarmos do restante
do bando e sermos penalizados por isso. Somos obrigados a conviver com uma
estrutura pública defasada e geralmente ineficiente, e ainda nos contentarmos
porque é isso que nos resta.
Todos nós
sabemos disso. É a nossa explícita realidade. Assim como todos a conhecem,
sabem também o que possibilita que ela continue se repetindo:
“O povo não se
mobiliza”.
“A população
não protesta”.
“No Brasil, se
não for sobre futebol, samba e mulher, ninguém liga pra nada”.
É o que dizem,
não sem alguma razão. Realmente, nenhuma revolução social aconteceu sem a
participação e o interesse das massas. A vontade popular é imprescindível para
que se mude a realidade vigente.
Aí os jovens
de São Paulo decidem fazer o que o Brasil inteiro deveria ter feito há muito
tempo. Tirar a bunda do sofá e ir para as ruas. Gritar palavras de ordem. Lutar
contra o que e eles consideram injustiça. Tentar mudar o país. Imediatamente
são taxados de vândalos e baderneiros. E sua causa é diminuída a meros vinte
centavos. Mas que belo paradoxo! Afinal, é ou não é para se mobilizar?
Decida-se, sociedade!
As pessoas que
levaram tiros de borracha na cara (porque os policiais paulistas só miram em um
lugar que não no meio da fuça, e é um lugar onde dói bastante) não estavam
protestando somente contra um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus.
Nada é tão simples assim. Protestavam contra a situação do país. Contra a
ineficácia das entidades que deveriam nos proteger e representar. Por melhores
condições de vida e igualdade de oportunidades. Contra o sucateamento de
absolutamente tudo em detrimento das obras para a copa – e também contra o fato
de que, além de ter de conviver com todos estes problemas, ter de pagar mais
vinte centavos na passagem.
Houve policial
quebrando a janela da própria viatura para simular confronto e justificar a
violência. Houve tiros contra a imprensa que trabalhava na cobertura do
protesto. Houve gente oferecendo flores para os policiais e, em troca, sendo
espancada. Houve surra em casal horas depois de o protesto ter terminado. Mas
nada disso você verá na grande mídia. Somente as bombas de efeito moral e as
imagens dos manifestantes sendo presos.
E as opiniões
das altas classes. Acasteladas sobre seus benefícios, lutando desesperadamente
para não ter de dividi-los com o restante dos brasileiros.
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