O Brasil devia
mudar seu nome para Paradoxo. Não haveria maiores incômodos em nos tornarmos
todos “cidadãos paradoxenses”, e condiria muito mais com nosso estado de
espírito enquanto nação.
Porque o nosso
povo é mesmo um brutal paradoxo. Somos diariamente saqueados pela maioria dos
representantes de nossa classe política. Aguentamos os desmandos de uma elite
que converge a totalidade de seus esforços em benefício próprio. Estamos à
mercê de acontecimentos alheios à nossa vontade e interferência, mesmo que seja
em nossos olhos que eles vão arder. A mídia dominante do país empurra goela
abaixo da população o que ela deve dizer, ouvir, ler e pensar, e precisamos
tomar aquilo como verdade absoluta, sob pena de nos desvirtuarmos do restante
do bando e sermos penalizados por isso. Somos obrigados a conviver com uma
estrutura pública defasada e geralmente ineficiente, e ainda nos contentarmos
porque é isso que nos resta.
Todos nós
sabemos disso. É a nossa explícita realidade. Assim como todos a conhecem,
sabem também o que possibilita que ela continue se repetindo:
“O povo não se
mobiliza”.
“A população
não protesta”.
“No Brasil, se
não for sobre futebol, samba e mulher, ninguém liga pra nada”.
É o que dizem,
não sem alguma razão. Realmente, nenhuma revolução social aconteceu sem a
participação e o interesse das massas. A vontade popular é imprescindível para
que se mude a realidade vigente.
Aí os jovens
de São Paulo decidem fazer o que o Brasil inteiro deveria ter feito há muito
tempo. Tirar a bunda do sofá e ir para as ruas. Gritar palavras de ordem. Lutar
contra o que e eles consideram injustiça. Tentar mudar o país. Imediatamente
são taxados de vândalos e baderneiros. E sua causa é diminuída a meros vinte
centavos. Mas que belo paradoxo! Afinal, é ou não é para se mobilizar?
Decida-se, sociedade!
As pessoas que
levaram tiros de borracha na cara (porque os policiais paulistas só miram em um
lugar que não no meio da fuça, e é um lugar onde dói bastante) não estavam
protestando somente contra um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus.
Nada é tão simples assim. Protestavam contra a situação do país. Contra a
ineficácia das entidades que deveriam nos proteger e representar. Por melhores
condições de vida e igualdade de oportunidades. Contra o sucateamento de
absolutamente tudo em detrimento das obras para a copa – e também contra o fato
de que, além de ter de conviver com todos estes problemas, ter de pagar mais
vinte centavos na passagem.
Houve policial
quebrando a janela da própria viatura para simular confronto e justificar a
violência. Houve tiros contra a imprensa que trabalhava na cobertura do
protesto. Houve gente oferecendo flores para os policiais e, em troca, sendo
espancada. Houve surra em casal horas depois de o protesto ter terminado. Mas
nada disso você verá na grande mídia. Somente as bombas de efeito moral e as
imagens dos manifestantes sendo presos.
E as opiniões
das altas classes. Acasteladas sobre seus benefícios, lutando desesperadamente
para não ter de dividi-los com o restante dos brasileiros.
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