sexta-feira, 31 de maio de 2013

Caça às bruxas


O amigo Artur Rodrigues escreveu algumas linhas em sua rede social, com as quais eu concordo plenamente: este julgamento dos envolvidos no incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria, está virando uma caça às bruxas. Os atos da imprensa e do Poder Judiciário e a utilização do instinto natural do ser humano em se aproximar de crianças e jovens estão sendo embrulhados para presente, etiquetados e entregues à comunidade com o nome de “opinião pública”.

Ora, opinião pública não existe desde a Grécia Antiga. Lá, pelo menos, eles se reuniam na “polis” e debatiam, tergiversavam, argumentavam. Hoje o que existe é a divulgação de conceitos enlatados, que geralmente interessam a alguém.

A liberação dos réus do processo para que esperem em liberdade o cumprimento do restante dos trâmites jurídicos, que deveria ser apenas uma execução de protocolo e, em qualquer outro caso, seria encarado de um viés positivo (liberdade, ainda que provisória e sem garantias, é sempre bem-vinda),  neste caso, só faz mal aos envolvidos. Eles deveriam estar rezando para continuarem na cadeia. Sua libertação efêmera coloca suas vidas em risco e só faz aumentar a comoção da comunidade pelo que chamam de “justiça”, mas na verdade é vingança pura e simples. Não há senso de justiça em causas como essa. A menos que sejam julgadas por robôs, desprovidos de alma, incapacitados de emocionarem-se. O que querem é vingança. Isso é plenamente compreensível, ainda que não seja correto e não possa ser o elemento chave para a atuação do Poder Judiciário. Só que vai ser.

Vai ser porque o juiz também é humano. Também é pai ou mãe, também tem irmãos. Mesmo sendo capacitados para apreciar os casos pelo que diz o código penal – e não seus próprios corações - é à sociedade que irão prestar contas de seus atos, e a televisão mostra incansavelmente o que a sociedade quer: sangue. Um olho por um olho. Como escapar da triste sina de prover a plebe de seu pão e seu circo?

Se analisarmos da distância correta, estas pessoas já estão pagando pelo que fizeram. Se presos em casa ou atrás das grades, é só um detalhe. Nunca mais viverão em sociedade do jeito que viviam antes. Nunca mais dormirão com a mesma tranqüilidade. Não terão mais sucesso nos negócios. Tudo porque fizeram o que fizeram sem a intenção de fazer. São culpados da tragédia por seus atos irresponsáveis, mas não pela intenção. São consumidos por seu remorso diariamente, de uma maneira que nenhum criminoso proposital é. Porque não queriam fazer o que fizeram. Viver com isso é a maior punição que lhes poderia ser imposta.


Mas nada disso é suficiente para a “opinião pública”, que idealiza seus próprios monstros, enquanto é bovinamente trucidada pelos bandidos reais.

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