Que os ianques são safados, ninguém duvida. Que eles seriam moralmente capazes de forjar a morte do Osama para colher os frutos políticos do feito, ninguém duvida. Mas esta onda de conspiracionismo que vejo acometer muita gente está indo longe demais. É inevitável que surjam, aqui e ali, bolsões de antiamericanismo, mas espera aí um pouquinho: é exagero pensar que, por menos que valham e por mais cafajestes que sejam, eles seriam estúpidos o suficiente pra por em risco qualquer chance de reeleição do Obama, se por acaso essa mentira viesse à tona.
O fato é que estão tentando transformar o Bin Laden em um novo Che, às custas dos ianques safados. O anti-herói que luta contra o imperialismo, sem medir conseqüências e nem dar valor às vidas civis. Mas espera aí de novo: há uma tênue diferença entre guerrilha e terrorismo. Tênue, sim, mas perceptível. Não há como comparar ações militares planejadas contra alvos específicos, com aviões atirados contra qualquer lugar que reúna milhares de inocentes. Há de endurecer, sim. Mas sem perder a sanidade mental jamais. Guevara não era uma flor de pessoa. A cada pá de história escavada, descobrem-se mais podres sobre este ícone da cultura pop. Mesmo assim, comparado ao terrorista árabe, ele é o genro que toda sogra gostaria de ter.
Li na Veja – não que isso deponha pela credibilidade da matéria – que tem colunista por aí mistificando a figura do barbudo. Estabelecendo em Bin Laden um símbolo da luta contra o capitalismo e tudo o que de mal ele represente. Isso é loucura. É praticamente ficção. Me lembra de quando eu torcia para o bandido, no cinema, só porque o mocinho era perfeito demais. Os americanos estão longe de serem perfeitos, e ainda mais longe de serem mocinhos. Mas o bandido, nesta história, está bem definido. E, ao contrário do que muita gente quer se convencer, bem morto.
Não sou um agente secreto americano infiltrado em terras tupiniquins para efetuar a tradicional lavagem cerebral a que todos estão vulneráveis. Mas o que muitos não percebem é que estas teorias de conspiração são exatamente a mesma lavagem cerebral, só que ao contrário. Se eles jogaram o corpo do Bin Laden no mar ou o encerraram numa caverna escura no meio da Área 51, isso não importa. Tem horas em que a ignorância é uma benção. Mas duvidar que os EUA sejam capazes, com seus soldados bem pagos e bem armados, de pegar um bandido maltrapilho num lugar inóspito desse mundão, é colocá-lo num patamar inalcançável, inatingível, imatável, onde só os mocinhos de cinema estão. É uma inversão de valores que transcende a teoria de conspiração e entra no campo do exagero inconseqüente.
E donde hay exagero, soy contra.
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