Tenho um bom
carro. Não é nada ostentador, mas me garante certos confortos que a maior
parcela dos brasileiros não pode usufruir. É um carro com padrão de classe
média. Combina bem com praticamente tudo na minha vida. Meus costumes de classe
média – ir a concertos musicais, ler bons livros, ir ao cinema com freqüência,
gastar uma parcela significativa do meu salário com entretenimento – cabem
perfeitamente nele, embora seja um Hatch.
Além
de um bom carro de classe média, o trabalho dos meus pais me garantiu uma
excelente educação em escola religiosa, me abasteceu com todo tipo de cultura
pela qual me interessei, e me possibilitou acesso ao ensino superior. Moro bem,
faço no mínimo três refeições por dia. Tenho amigos, muitos amigos. De
diferentes nichos sociais, credos, associações, grupos. Me preocupo com pessoas
e muita gente também se preocupa comigo. Já encontrei aquela com quem pretendo
envelhecer, e é com ela que passo a maior parte do tempo. Não sou afeito a
festas e agito. Prefiro o conforto de um cobertor, um bom livro e uma taça de
merlot. Não há nada mais classe média do que isso. Sou o que a sociedade
costuma chamar de “privilegiado”
Nunca
fiz mal a uma mosca. Minha única derrapada com a lei é uma multa por atrasar o
registro do carro por mais de trinta dias. Foram 36. Meus amigos conhecem minha
índole. Organizo campanhas de doação, participo ativamente de movimentos
sociais, defendo fracos e oprimidos com a melhor arma que Deus me deu: a
caneta. E, como se percebe, sou religioso. Sou gente boa, enfim.
Mas
meus status de classe média me permite alguns luxos. Um happy hour em Passo
Fundo, num bar descolado, com ambiente climatizado. É para lá que eu vou com
meu carro de classe média. Por lá, bebo duas garrafas de cerveja “long neck”.
Como tenho mais de 100 quilos, o efeito do álcool no meu sangue é nulo. Saio do
bar lá pelas 2h da manhã, totalmente consciente de que, sim, posso dirigir de
volta para minha casa. O álcool não me afetou. E sigo meu rumo.
No finalzinho
da Presidente Vargas, depois das lombadas, pronuncia-se uma grande reta. O
limite de velocidade ali é de 40 km/h. Ora, são duas da manhã, ninguém – eu disse:
ninguém – anda no limite naquele lugar, principalmente naquele horário. Movo o
velocímetro suavemente até os 80 km/h, velocidade dentro do normal. Todo mundo
anda à 80 naquele lugar. Aconchego-me no banco e preparo-me para os 30 minutos,
em média que separam Passo Fundo de minha cidade natal. Enquanto sintonizo a
Atlântida para ouvir minhas músicas de classe média, um ciclista maluco cruza a
rua em surpreendente velocidade. Não dá tempo de desviar. O impacto é fatal.
Freio bruscamente e paro o carro sobre o canteiro central. Corro em direção ao
ciclista, apenas para constatar que já está morto.
Sou um cidadão
de bem, cumpridor de seus deveres e merecedor de seus direitos. Ligo para a
polícia. Junto à viatura e à ambulância, chega o carro de uma emissora de TV.
Eles filmam o momento em que faço o teste do bafômetro. O policial informa que
há álcool no meu sangue. Para minha infelicidade, a câmera também filma a mãe
da jovem vítima, desesperada, chorando pela vida do filho. E o pára-brisa do
meu carro espatifado. A repórter relata que eu aplicava em meu carro de classe
média O DOBRO da velocidade permitida no local, e ainda fala, com a preguiça de
quem é acordada às duas da manhã para fazer plantão, que eu “apresentava sinais
de embriaguez”.
Em menos de um
minuto, fui retirado da condição de cidadão honesto, de bem, pagador de
impostos, religioso, bem educado e privilegiado, e alçado ao status de monstro.
Pipocam nas redes sociais pedidos por justiça. Sou um playboy que acha que pode
fazer o que quer e sair impune. Matei um trabalhador porque sou um
irresponsável, um menino-mimado que está se lixando para as leis e o direito
dos outros. A mídia não colabora, sensacionaliza o fato. Ouve a mãe, o pai, o
irmão da vítima. Faz simulações a respeito da velocidade no local. Sou culpado.
Não adianta espernear. A sociedade já me julgou.
Agora, tente
se lembrar: quantas vezes você andou acima do limite? Quantas vezes você bebeu
uma quantidade de álcool e teve certeza de que aquilo não o afetaria? Quantas
vezes você se distraiu ao sintonizar o rádio? Em todas estas vezes, você
poderia ter se tornado um assassino. Um playboyzinho de merda. Não importa se
você canta no coral da igreja. Não importa se você doa roupas para a campanha
do agasalho. Não interessam seus predicados sociais, sua classe e seu conhecimento
de comida japonesa. O que lhe salvou foi o acaso. Não havia ciclistas, nem
crianças, nem ninguém. Mas da próxima vez, poderá haver.
O cidadão
médio tem uma dificuldade enorme em se enxergar como criminoso. Para a maioria
de nós, os bandidos nascem com a genética do crime. Têm propensão a cometer
delitos. MENTIRA. O crime é uma circunstância social, que pode acontecer comigo,
com você, com qualquer um. A não ser em casos onde a demência é visível, a
brutalidade é escancarada. Mas não existe lei especial para estes casos. Até
porque são subjetivos. A lei é para todos. Para os que matam a sangue frio, e
para os que são vítimas do acaso.
Tenha isso em
mente na próxima vez que assistir uma reportagem sobre um crime. Ao gritar por
aí que a justiça do Brasil não funciona, ao exigir justiça e penas duríssimas
para todo mundo, imagine-se no lugar do criminoso. Imagine que seus vinte,
trinta, quarenta anos de bom-mocismo, podem ser apagados a qualquer momento por
uma falha momentânea.
Todos nós
estamos sujeitos a virarmos monstros do dia para a noite. E, quando isso
ocorrer, seremos nós os alvos da inclemência da sociedade padrão. Aquela que
apedreja quem sai da linha: justamente a classe média.
* Ouvi este exemplo de um jurista que agora me escapa o nome. Infelizmente não posso lhe dar os créditos.
** As imagens são meramente ilustrativas, mas pertencem a casos reais.


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