No
fundo, eu deveria agradecer a Veja. Me sentir satisfeito por receber em casa um
exemplo de tudo o que eu nunca deverei fazer enquanto jornalista. E sim, eu
assino a Veja.
Assino porque o maior erro da esquerda brasileira –
embora eu não saiba ao certo se sou de esquerda, mas definitivamente não sou de
direita – é não ler o que a direita publica. Enquanto a direita devora
avidamente tudo o que a esquerda produz. Erro este que não cometerei. Conhecer
o adversário é sempre importante. Neste caso, o adversário é aquela parcela da
classe média que deseja, sim, que haja ascensão social, mas que seja pelo
elevador de serviço, porque cruzar com esse tipo de gente no corredor,
francamente, não condiz com o nível deles.
Pois versava sobre a capa da Veja desta semana: “Você
Amanhã”, diz a manchete. A foto mostra que “você” é um homem branco, executivo
engravatado e com as cutículas bem cuidadas, gravata frouxa e botão da camisa
aberto para aliviar-se do trabalho estafante e ultrajante que é... Lavar louça.
Tudo isso é completado pela cara de ânus que “você” faz para a foto. Onde já se
viu, um cidadão de bem, impulsionador do PIB brasileiro, precisando lavar
louça?
Mas
espere! Espere que fica melhor: a matéria segue cheia de preconceitos e defende
indiretamente o direito dos cidadãos-pagadores-de-impostos, neste caso, a
classe média podre, de pagarem o que bem entenderem para seus empregados,
estipularem suas cargas horárias e escolherem entre os benefícios que aceitam
ou não oferecer. Segundo a Veja, regulamentar a profissão vai trazer enormes
prejuízos à classe das domésticas. E aos patrões então, nem se fala. É possível
que tenham que começar a abastecer suas Land Rovers e seus Azeras com gasolina
comum – O horror! O horror! - ao invés de aditivada. E lá pelas tantas aparece
na legenda da foto de uma advogada (bem vestida, toda produzida, sentada numa
poltrona ma-ra-vi-lho-sa. Empregada uniformizada varrendo a mansão, ao fundo):
“Não há porque burocratizar a
relação com alguém que assiste TV comigo”.
Ora,
adoraria saber qual das duas escolhe o canal. Ou se a empregada tira os
calçados e repousa os pés confortavelmente sobre o puff central. Ou ainda se
lhe é permitido opinar sobre o que comer e a que horas será servido o jantar.
Esta
classe média defendida pela reportagem é a mesma que afirmou que o país ia
falir se o décimo-terceiro fosse aprovado. A mesma que chama trabalhador em
greve de “vagabundo” e posta em seus perfis do Facebook mensagens ofensivas aos
programas sociais estabelecidos. Desconfio que seja a mesma classe média que
marchou em grande número “por Deus, Família e Liberdade”, em apoio ao golpe militar
que jogou o Brasil nas trevas da ditadura por 21 anos. E é até hoje a classe
responsável pelo que chamamos filosoficamente de “essa coisa toda que vemos por
aí”.
Deus
me livre de, algum dia, pensar desse jeito.

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