segunda-feira, 8 de abril de 2013

Deus me livre




No fundo, eu deveria agradecer a Veja. Me sentir satisfeito por receber em casa um exemplo de tudo o que eu nunca deverei fazer enquanto jornalista. E sim, eu assino a Veja.
            Assino porque o maior erro da esquerda brasileira – embora eu não saiba ao certo se sou de esquerda, mas definitivamente não sou de direita – é não ler o que a direita publica. Enquanto a direita devora avidamente tudo o que a esquerda produz. Erro este que não cometerei. Conhecer o adversário é sempre importante. Neste caso, o adversário é aquela parcela da classe média que deseja, sim, que haja ascensão social, mas que seja pelo elevador de serviço, porque cruzar com esse tipo de gente no corredor, francamente, não condiz com o nível deles.
            Pois versava sobre a capa da Veja desta semana: “Você Amanhã”, diz a manchete. A foto mostra que “você” é um homem branco, executivo engravatado e com as cutículas bem cuidadas, gravata frouxa e botão da camisa aberto para aliviar-se do trabalho estafante e ultrajante que é... Lavar louça. Tudo isso é completado pela cara de ânus que “você” faz para a foto. Onde já se viu, um cidadão de bem, impulsionador do PIB brasileiro, precisando lavar louça?
Mas espere! Espere que fica melhor: a matéria segue cheia de preconceitos e defende indiretamente o direito dos cidadãos-pagadores-de-impostos, neste caso, a classe média podre, de pagarem o que bem entenderem para seus empregados, estipularem suas cargas horárias e escolherem entre os benefícios que aceitam ou não oferecer. Segundo a Veja, regulamentar a profissão vai trazer enormes prejuízos à classe das domésticas. E aos patrões então, nem se fala. É possível que tenham que começar a abastecer suas Land Rovers e seus Azeras com gasolina comum – O horror! O horror! - ao invés de aditivada. E lá pelas tantas aparece na legenda da foto de uma advogada (bem vestida, toda produzida, sentada numa poltrona ma-ra-vi-lho-sa. Empregada uniformizada varrendo a mansão, ao fundo):
“Não há porque burocratizar a relação com alguém que assiste TV comigo”.
Ora, adoraria saber qual das duas escolhe o canal. Ou se a empregada tira os calçados e repousa os pés confortavelmente sobre o puff central. Ou ainda se lhe é permitido opinar sobre o que comer e a que horas será servido o jantar.
Esta classe média defendida pela reportagem é a mesma que afirmou que o país ia falir se o décimo-terceiro fosse aprovado. A mesma que chama trabalhador em greve de “vagabundo” e posta em seus perfis do Facebook mensagens ofensivas aos programas sociais estabelecidos. Desconfio que seja a mesma classe média que marchou em grande número “por Deus, Família e Liberdade”, em apoio ao golpe militar que jogou o Brasil nas trevas da ditadura por 21 anos. E é até hoje a classe responsável pelo que chamamos filosoficamente de “essa coisa toda que vemos por aí”.
Deus me livre de, algum dia, pensar desse jeito.

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