Nunca vi na vida tanta gente falando
de tomate. Até eu embarquei na onda e arrisquei algumas piadinhas nas redes
sociais. Nenhuma com grande êxito, diga-se de passagem. É que todas as boas
sacadas já haviam sido publicadas e estavam sendo compartilhadas a granel. A
alta do preço do tomate inflacionou até as boas piadas, veja você.
Mas ia dizendo que era tomate pra
todo lado. Abria o facebook, lá estavam eles. Nas primeiras páginas da ZH, só
dava o vermelhinho (que, a propósito, é um fruto, apesar de sua fama de
leguminosa). Noticiário de televisão, então, nem se fala. Era tomate e mais
tomate. E aquilo foi me deixando intrigado. Até a Ana Maria Braga fez piada com
tomate. Piores do que as minhas.
O que mais me intriga é que o tomate
não é, assim, gênero de primeiríssima necessidade. Não é como feijão, arroz,
farinha. Na falta de tomates, tempera-se outra coisa. Ponha-se menos katchup no
xis, menos molho na macarronada. Dê-se um jeito. A humanidade viveu centenas de
milhares de anos sem tomate. Mesmo os italianos viveram sem tomate por muito
tempo, até descobri-lo. Por isso já estava achando esta gritaria muito
exagerada. A própria Maria Antonieta nos ensinou, às épocas da Revolução Francesa:
se não tem pão, que comam brioches! Grande paráfrase: na falta de tomates,
coma-se rúcula. Então qual seria a grande dificuldade em simplesmente aguardar
o preço do tomate normalizar?
Foi então que descobri que a reunião
do COPOM – que vem a ser o Conselho de Política Monetária – está marcada para o
próximo dia 16. Então é preciso que se
ressuscite o fantasma da inflação desenfreada, do overnight, da retabulação,
para que não aconteça mais uma reunião do COPOM sem o reajuste da taxa de
juros. À superior, é claro. Nem que para isso seja preciso colocar a culpa em
algo tão inocente, tão puro e, francamente, tão sem graça quanto o tomate.
Não deu certo, felizmente. O preço do
tomate já começou a baixar (já caiu mais de 40% desde que a gritaria começou) e
até os economistas mais “antidilmistas” reconhecem que o aumento da inflação
foi algo eventual. A colheita do tomate, que coincidentemente começa ainda este
mês, vai fazer com que tudo se ajeite.
Talvez seja por isso que, ao abrir o
jornal na manhã de hoje, li que estão transferindo toda a culpa agora para a
cebola. Enganaram-se. Ficaram prestando atenção no tomate, vigiando o tomate,
fazendo ronda em frente à casa do tomate, e enquanto isso a cebola escapulia. Grilhões
nela, agora.
Mas as coisas estão tão bem que isso
não vai passar de piada sem graça, de novo.

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