quinta-feira, 1 de maio de 2008

Albânia

A conheci na fila do bufê. Ela sempre almoçava lá com as amigas, soube depois. Tinha conhecimento do movimento do lugar. A fila estava enorme. Eu nunca havia posto os pés naquele restaurante. Nada contra o lugar, apenas nunca tive oportunidade. Quando entrei, como todo gordo, fui direto ao bufê. A vi batendo o pezinho esquerdo com a ânsia de quem está atrasada e com fome. E que pezinho esquerdo. O Pé esquerdo mais elegante que eu já vi. Pensei em puxar assunto. Foi exatamente o que fiz.
- E esta fila que não anda?
- É...
Pelo jeito a comida daqui deve ser ótima.
- É...
- E esse tempo? Acho que vamos nos molhar quando sairmos daqui.
- Hã?
- Digo, não juntos... Quando sairmos, quis dizer, todos nós...
- Ah...
Pronto. Fiquei sem assunto. Não me dou bem com pessoas monossilábicas. Quando já pensava que havia levado um pé, e – repito – que pé, nas nádegas, ela falou. Não aquelas frases poéticas, com sujeito e predicado. Uma simples pergunta.
- Tás a fim de fazer um jogo?
- Ô!
Tudo o que eu queria naquele momento era fazer qualquer coisa com a dona daquele donairoso pé. O jogo que ela me propôs foi o seguinte: Perguntas rápidas, respostas mais ainda. A resposta deve ser em apenas uma palavra e já deve ser acompanhada da próxima pergunta. Não vale pedir explicações detalhadas. Aceitei. Ela começou.
- Loção de barba?
- Bruth. Comida favorita?
- Arroz e fritas. Sonho de consumo?
E assim foi. Sentamos na mesma mesa. Passamos o almoço todo nos perguntando coisas. Duas metralhadoras, já que o objetivo do jogo era ser rápido. Conforme o tempo passava, as perguntas ficavam mais cabeludas. Cor da cueca, marca de absorvente, e assim por diante. Saímos daquele restaurante, Trocamos e-mails e o jogo continuou via internet. Me assustava a rapidez com que ela respondia e emendava a próxima pergunta. Já devia ser expert neste jogo.
- País onde quer morar?
- Albânia.
Meu deus. Me contorci de vontade de pedir o porquê de morar na Albânia. Mas o jogo não me dava essa brecha. Passamos a noite nos questionando, via web. Almoçamos juntos, sem combinar, no dia seguinte, sempre seguindo o jogo, cada vez mais rápido. Peguei o jeito. Já batia de frente com ela e as minhas perguntas eram cada vez mais lapidadas. Mas a Albânia não saía da minha cabeça. Que nebulosa razão alguém teria para querer morar na Albânia. Uma naçãozinha de fezes? Já mostrava sinais de desconcentração quando ela me olhou nos olhos. A primeira vez desde a fila do bufê, no dia anterior. Não me controlei. Precisava saber por que a Albânia. Perguntei. Ela deu um sorriso. Meio sorriso, na verdade. Soltou o guardanapo sobre o prato e disse:
- Perdeu.
Levantou-se e saiu, simplesmente. Nunca mais nos falamos, nem por e-mail. Ainda sonho com aquele pé. E a Albânia ainda me dá gastrite.

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