sexta-feira, 26 de março de 2010

Que sejam culpados

Desde segunda-feira eu já tinha uma idéia para escrever a coluna desta semana, aí abro o Zero Hora de sexta-feira e na última página, lá está o Paulo Sant’Ana lendo os meus pensamentos e escrevendo antes de mim. Sobre o casal Nardone. Aliás, ele escreveu algo parecido com o que eu penso, mas ainda me deixou um campo vasto para ser abordado, sem que, assim o fazendo, eu caia no plágio. Então, lá vai:

Tomara, mas tomara mesmo, que essa gente realmente seja culpada do crime que chocou o país. Porque se forem inocentes, já não fará mais a mínima diferença. Se houver a chance de serem absolvidos, seja ela de meio por cento ou escancaradamente maior do que o imaginado, não importa: ela vai ser desconsiderada, porque aos olhos do Brasil, eles são culpados e pronto. Esse negócio de julgamento, de seguir as regras da Justiça, de deixar a decisão por conta do Judiciário, que é de fato o poder responsável por condenar ou absolver alguém, é coisa para povinho. Nós, a nação realmente inteligente, julgamos pelo que nos mostram pela tevê. E nela falam que os dois são monstros. Logo, devem ser mesmo.

As emissoras que se esmeraram na cobertura total – e por vezes bizarra – do fato, nunca fizeram questão de tratar o pai e a madrasta da menina como “principais suspeitos”, ou “prováveis responsáveis”. Eles sempre, incondicionalmente, foram tratados por “monstros”, “psicopatas”, “assassinos-sem-coração”.

Passando por cima de um direito humano primordial, que consta inclusive na nossa tão injustamente desprestigiada constituição, o de que todo indivíduo tem direito a um julgamento imparcial, com ampla defesa, e que sempre será inocente até prova inquestionável em contrário, os grandes meios de comunicação pré-julgaram os suspeitos e incutiram no brasileiro a idéia de que ambos já foram condenados. O acompanhamento cinematográfico de todas as perícias e reconstituições fez com que não somente o casal Nardone, mas os jurados que por ventura votarem numa possível inocência dos réus, corram o risco de serem mortos a pedradas, em alguma esquina do Brasil.

Casos assim já ocorreram antes. Quem se lembra do episódio Escola de Base? A maior injustiça já cometida em nosso sistema criminal, que geriu o processo baseado quase unicamente no que passava na televisão, e condenou um casal de idade já avançada, por abuso infantil. Crime que, anos depois, quando já era tarde demais, ficou comprovado que nunca havia acontecido. De forma alguma defendo a inocência de Alexandre Nardone e Ana Carolina Jatobá. Só lembro que nunca é indicado julgar com antecedência, e que a televisão não é o melhor juiz, principalmente num caso cheio de incertezas, com perícias polêmicas e inconclusivas.

Para o bem de todos, inclusive deles mesmos, é melhor que sejam culpados. Que sejam levados às masmorras e nunca mais voltem à luz do dia. Sob pena de serem linchados em praça pública, por brasileiros honestos que tem por hábito fazer sua própria justiça, e que se danem os princípios.

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