Eu não sou um daqueles cronistas técnicos que hoje escreveriam “Dia do trabalhador: Temos o que comemorar?”, e listaria todos os prós e contras de ser trabalhador hoje, chegando à conclusão de que o trabalho enobrece, mas que bom mesmo é não precisar trabalhar. Não sou analista, não por falta de vontade de sê-lo, e sim porque me faltam argumentos. Por não saber tudo, me sobra a irreverência. E por não poder ser enfático, tenho que ser sutil, sem deixar de ser mordaz. Digo isso porque a cada feriado de primeiro de maio nos é apresentado, via imprensa, um buffet de reclamações a respeito de quase tudo, e da situação do trabalhador, e da inflação, e da falta de reajustes, e, sendo mais claro, dessa coisa toda que está aí.
É claro que temos o que comemorar. Eu, por exemplo, comemoro o fato de ter trabalho, e ganhar o que considero um valor justo pela atividade que desempenho. Somente poder dizer-se trabalhador no Dia do Trabalho. O mundo está perdido, 2012 se aproxima, e ter trabalho remunerado já é grande coisa. Mas o trabalho em si não enobrece ninguém. O que nos faz bons cidadãos, afamados nos nossos círculos sociais e prestigiados perante a comunidade é, e não poderia ser diferente, o que fazemos enquanto trabalhamos. As amizades que cultivamos, a sinceridade que dispensamos aos nossos colegas, o carinho com que estrangulamos nossos estagiários, e o interesse que demonstramos pelos desejos dos nossos clientes. Nossas relações com as pessoas, e não com as demandas, nos enobrecem. Se não fosse assim, o trabalho seria extremamente inútil e desagradável. Apenas algo que usamos como desculpa para não nos preocuparmos com a situação de nossa comunidade, e não participarmos das decisões coletivas que influenciam em seu pleno funcionamento.
Interessante é saber que o Dia do Trabalho surgiu no calendário como uma data para a realização de protestos anarquistas e comunistas, contra os desmandes da classe patronal contra o proletariado. De lá pra cá – quando eu digo “lá”, entenda-se década de trinta – o Primeiro de Maio se transformou em data comemorativa, de celebração, de confraternização. Até a Força Sindical realiza shows populares ao invés de piquetes, hoje
Até quando o feriado cai num sábado. O que para mim, servidor público, tira toda a graça do negócio.
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