sexta-feira, 30 de abril de 2010

Dia do trabalho


Eu não sou um daqueles cronistas técnicos que hoje escreveriam “Dia do trabalhador: Temos o que comemorar?”, e listaria todos os prós e contras de ser trabalhador hoje, chegando à conclusão de que o trabalho enobrece, mas que bom mesmo é não precisar trabalhar. Não sou analista, não por falta de vontade de sê-lo, e sim porque me faltam argumentos. Por não saber tudo, me sobra a irreverência. E por não poder ser enfático, tenho que ser sutil, sem deixar de ser mordaz. Digo isso porque a cada feriado de primeiro de maio nos é apresentado, via imprensa, um buffet de reclamações a respeito de quase tudo, e da situação do trabalhador, e da inflação, e da falta de reajustes, e, sendo mais claro, dessa coisa toda que está aí.

É claro que temos o que comemorar. Eu, por exemplo, comemoro o fato de ter trabalho, e ganhar o que considero um valor justo pela atividade que desempenho. Somente poder dizer-se trabalhador no Dia do Trabalho. O mundo está perdido, 2012 se aproxima, e ter trabalho remunerado já é grande coisa. Mas o trabalho em si não enobrece ninguém. O que nos faz bons cidadãos, afamados nos nossos círculos sociais e prestigiados perante a comunidade é, e não poderia ser diferente, o que fazemos enquanto trabalhamos. As amizades que cultivamos, a sinceridade que dispensamos aos nossos colegas, o carinho com que estrangulamos nossos estagiários, e o interesse que demonstramos pelos desejos dos nossos clientes. Nossas relações com as pessoas, e não com as demandas, nos enobrecem. Se não fosse assim, o trabalho seria extremamente inútil e desagradável. Apenas algo que usamos como desculpa para não nos preocuparmos com a situação de nossa comunidade, e não participarmos das decisões coletivas que influenciam em seu pleno funcionamento.

Interessante é saber que o Dia do Trabalho surgiu no calendário como uma data para a realização de protestos anarquistas e comunistas, contra os desmandes da classe patronal contra o proletariado. De lá pra cá – quando eu digo “lá”, entenda-se década de trinta – o Primeiro de Maio se transformou em data comemorativa, de celebração, de confraternização. Até a Força Sindical realiza shows populares ao invés de piquetes, hoje em dia. Tudo bem que alguns cismam em dizer que tudo isso é manobra política, que o Vargas deu o golpe e transformou um dia de manifestações em uma data de festejos. Mas nenhuma decisão política desta magnitude pode ser deglutida pela população, se não houver um pingo de alegria perante sua situação. Houve protestos, e sempre haverá. Nem tudo são flores. Mas está claro que todas as comemorações que hoje serão realizadas em diversas partes do mundo, são plenamente justificadas.

Até quando o feriado cai num sábado. O que para mim, servidor público, tira toda a graça do negócio.

Nenhum comentário: