sábado, 10 de abril de 2010

Nenhuma novidade

A cidade maravilhosa já não é mais maravilhosa há anos. É o que dizem. Eu não conheço muito além do que as fotos de parentes que já visitaram o Rio de Janeiro, e o que é veiculado nos meios de comunicação. Não mais do que as praias dos ricos e os apartamentos da classe média alta, ou o oposto disso, que são os barracos empilhados morro a cima, que correspondem a dois terços do rio de Janeiro, que é – salvo engano da minha fonte – a segunda cidade que mais tem favelas em todo o mundo, só perdendo para Kingston, na Jamaica.

Tantas favelas, que elas se proliferam até sobre os lixões, sobre os aterros, sobre solos inconstantes. Tantas favelas, que o governo não sabe o que fazer. E geralmente, quando é esta a situação, faz errado. Num local que nem deveria existir, foram realizadas obras de urbanização, quando a verdadeira obra de urbanização seria remover esses redutos, e instalar aquela população noutro lugar, onde a chance de um morro cair na cabeça deles seria consideravelmente menor.

Previsível e sem nenhum senso de humor, como a maioria dos morros costumam ser, aquele também acabou caindo na cabeça dos moradores dos barracos. E muitos foram para baixo da terra, só se esqueceram de morrer primeiro, para aliviar o sofrimento. Nenhuma novidade. Nada que os governantes do Rio de Janeiro não soubessem. Os de Brasília também já sabiam. Hora ou outra, como já havia ocorrido em outros lugares na mesma cidade – e em cidades diferentes no mesmo estado, Angra dos Reis, Niterói... – porém com menor intensidade, por fim sucedeu-se.




Não vamos esquecer que esta é a cidade que receberá os Jogos Olímpicos e as partidas mais importantes da Copa do Mundo, e que para isso terá seu centro e bairros nobres totalmente remodelados. As favelas ficarão daquele jeito mesmo, porque são pontos turísticos que os gringos gostam de ver. Também é importante lembrar que de cinco estrangeiros, três pensam que a nossa capital é o Rio de Janeiro. E um pensa que é Buenos Aires.

Das grandes avenidas, dos novos complexos esportivos e da linha suplementar de metrô, já sabemos. Afinal, estas obras – que ainda estão só no papel – foram alardeadas com grande alvoroço, logo depois da confirmação dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Porém, a última favela que o governo transformou em núcleos habitacionais dignos de cidadãos com direitos humanos, data do tempo do Carlos Lacerda, sessenta e seis, por aí. De lá pra cá, a natureza vem se encarregando do que as autoridades deveriam fazer: tirar as pessoas de cima dos morros.

Além de provar que o Gilberto Gil estava errado: o Haiti é aqui, sim senhor.

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