quarta-feira, 19 de maio de 2010

Republicando: Morreu o Chico

Começo hoje uma série de republicações do que eu considero meus melhores textos, porém, não estão no blog, sei lá por que motivo. O primeiro, é uma homenagem ao Grande Chico Vilella, maltrapilho atropelado há dois anos. Aí vai:

Eu cresci pensando que homens como o Chico eram imorríveis. Não imortais, imorríveis. Esses que vivem na rua, cheios de sujeira e micróbios, na companhia de um velho cão e um litro de cachaça. Estes homens que sabem muito bem lidar com a falta de comida, agasalho e compaixão.
Quando eu era criança, imaginava-os como seres mitológicos resistentes às armadilhas do tempo, afinal, conservavam sempre a mesma cara. Uma cara nada conservada, diga-se de passagem. Como pode um homem que dorme ao relento numa noite de temperaturas negativas, não ser imorrível? Se as bactérias, a falta de banho, a rara escovação dos dentes, não o matavam, então seria ele um homem imatável? Como nos mostra o tempo, este professor insensível, não.
Já nos tiraram o grande Belmiro, ainda sob circunstâncias polêmicas, o que me faz pensar que estes homens-meninos-de-rua não morrem como mendigos propriamente ditos, mas como homens de vida movimentada. O Belmiro, por exemplo. Quem diria que morreria de morte matada, executado a tiros, como um agente secreto disfarçado de mendigo, como um cowboy que fazia parte da gangue dos bandidos. Não é a morte-padrão dos maltrapilhos. Estes morrem de cirrose, frio, pestes em geral.
O Chico, então, esse era um alienado, que vivia à margem da sociedade. Há pouco tempo, enfrentara a perda de sua companheira de solidão. Como todos sabem, também existe solidão à dois. Recentemente, quem o abandonou foi seu fiel cachorro. Chico estava sozinho, e o pior, sem perspectiva de encontrar alguém. Não se enquadrava nem nas estatísticas, não tinha documentos, não votava, não recebia ajuda do governo, ou seja, nem um número ele era. Pois agora, leiam só, ele é. Como última traquinice deste brincalhão, que, ao invés de levar a vida, decidiu ser levado por ela, resolveu morrer na RS 324, e agora, finalmente, faz parte das estatísticas. Chico é agora, parte de um todo.
Mas ele, assim como o Belmiro, será lembrado pela população. Essa é uma das inexplicáveis facetas da raça humana, lembramos dos que fazem muito, mas também dos que não fazem absolutamente nada, a não ser existir. Para os que assim como eu, quando criança o imaginaram como o velho-do-saco, o Capitão Gancho, o Bicho Papão, Chico faz parte do folclore da cidade, e por isso tem seu lugar guardado na eternidade, junto dos grandes nomes, que realizaram grandes feitos, e dos que simplesmente riram dos grandes feitos dos outros. Ele preferiu não deixar legado, e talvez este seja o seu legado. A lembrança de um homem que achava graça da fome, da pobreza, do vício e do frio. Alguém que nos deixou alguns ensinamentos, entre os quais, a frase escolhida para fechar esta crônica:
- Aqui, com arroz!

Um comentário:

Anônimo disse...

Esse é com certeza o melhor. Parabéns!