segunda-feira, 30 de março de 2009

Merthiolate

Eu sou do tempo em que Merthiolate ardia. Lembra do Merthiolate? Hoje nem sei se existe mais. Mas quando eu era criança e esfolava os joelhos – ou melhor, ainda tinha joelhos – o Merthiolate era o terror da minha vida, e da vida dos guris que viviam se esfolando, como eu.
Sim, estimado leitor. Lá vem mais uma coluna saudosista. É claro que alguém de vinte e dois anos tem o direito de ter saudade do passado. Ainda mais quando se percebe uma evolução – não seria bem essa a palavra, mas vá lá – tão grande e inevitável.
Se você for da mesma faixa etária que eu, deve lembrar de quando o Kinder Ovo custava um real ou menos. Na bodega do Portella era ainda mais barato. E vinha com brinquedinho de montar. E tinha aqueles potões giratórios, com compartimentos independentes, em que o bodegueiro geralmente guardava balas sortidas.
Quando tinha onze anos, adorava aquelas balas de caramelo em formato de chupeta. Demorava horas para terminar, e não havia como permanecer com a boca e mãos limpas. Meu avô me mandava no mercadinho comprar Rinso e Kiboa, e eu podia comprar um Mirabel ou um biscoito Fofy com o troco. Alguém lembra do biscoito Fofy?
Eu sou do tempo em que os primos tomavam banho de mangueira junto, menino e menina, só de cueca e calcinha. Até os dez anos, no mínimo. As músicas, naquela época, tinham coreografia e festas de quinze anos não eram megaeventos. Eu não tive celular, tive tamacotchi. E eles nunca morriam de fome, porque não havia orkut. Aliás, fotos eram raras, para marcar momentos realmente especiais, e não para se bobear na frente do espelho. Sexo não era banal. Ver revista de mulher pelada era motivo de surra das boas, e castigo ainda maior.
Tênis de luzinha eu usei até os doze anos. Mesma idade em que eu larguei a pasta de dente Tandy, sabor uva. Na escola, respondíamos os questionários dos cadernos das meninas, com perguntas como “Qual sua cor favorita” e “Quem você levaria para uma ilha deserta”.
Brinquei de Pogobol. Joguei taco, andei de bicicleta só por andar, e não para ir a algum lugar. Tinha carrinho de lomba. Meu pai me fazia atiradeiras, na época em que não se iria preso por isso. Minha mãe me proibia de sair de casa, ou me puxava a orelha se eu não quisesse tomar banho, e não era acusada de “violência contra menores”. Eu tinha medo do Conselho Tutelar. Tirar nota vermelha era sinônimo de vergonha e algumas horas de choro, trancado no quarto. Meninas brincavam de boneca. Maquiagem era coisa pra gente grande.
Mas tudo isso mudou. Anteontem vi uma menina de doze anos fumando. No meio da rua, e provavelmente o adulto que estava ao seu lado era sua mãe.
São outros tempos. E nem faz tanto tempo assim...

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