sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Prazos


Eu sempre gosto de escrever sobre Einstein porque ele é um clichê da inteligência. Assim como quem conhece Shakespeare pode se passar por literato, quem conhece Einstein pode se passar por cientista. Ao menos é o que parece. Saber os bordões, é claro. É disso que estou escrevendo. Não se trata de encenar Hamlet de cabo-a-rabo. Basta declamar “ser ou não ser, eis a questão” de maneira convincente, e salientar que é de Hamlet, e que o Hamlet é de Shakespeare.

Com o Einstein é a mesma coisa. Muita gente de QI mediano – como eu, acreditem – se passa por intelectual apenas sabendo o básico. É importante saber do que se trata a teoria da relatividade. Consideravelmente mais fácil do que entendê-la e, acima de tudo, decorá-la. Citar Einstein geralmente provoca um “oh” no subconsciente de quem ouve.



Dizia ele que o que acontece entre o céu e a Terra é demais para a nossa vã filosofia. Ou era Shakespeare quem dizia isso. Um dos dois. Na verdade, os dois. A teoria da relatividade é praticamente isso, só que na física, e não na poesia. O velho judeu propôs que, dentro das quatro dimensões conhecidas pelo homem (três de espaço – altura, comprimento e largura – e uma de tempo), tudo o que acontece é relativo, mudando de acordo com a perspectiva. As medidas de espaço mudam de acordo com a proximidade do objeto, e a de tempo de acordo com o lado da porta do banheiro em que você encontra, se dentro ou fora. Numa visão simplista e interiorana, é quase isso.

Esta última é que me persegue. O tempo, que não existe, é medido por mera convenção. A natureza faz as coisas acontecerem aleatoriamente e, como já escrevi semana passada, a ânsia humana de ordenar os acontecimentos cria aberrações como as medidas temporais, que acabam sempre desaguando em palavrinhas incomodativas, principalmente para quem trabalha com processos criativos:

Limite máximo para entrega.

Tempo determinado.

Ou, como se diz na era moderna, em que tudo é em inglês, “dédi laine”.

Em resumo: Prazos, prazos, prazos. Para conclusão de layouts, para finalização de processos, para requerimento de despesas, para a entrega da coluna, para o almoço, para o remédio, para dormir e para acordar. Ninguém faz mais nada livremente, e a certeza de que o tempo é relativo aumenta junto com o desejo de que os nossos dias tivessem mais três ou quatro horas. Maldito Einstein. Por culpa sua, estou com fama de ranzinza e atrasado.

Relatividade uma ova.

Um comentário:

MLongo disse...

como diria meu professor de história, "o tempo é apenas a sensação de passado e de futuro"

by:ana