sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O verdadeiro resquício da Ditadura



A Ditadura Militar marcou tanto os brasileiros que até hoje rende uma boa discussão e alguns traumas. Mais traumas do que discussões, na verdade. Temos ânsia de colocar uma pedra sobre tudo, como se os arquivos do Regime de Exceção fossem voar e se espalhar novamente, a qualquer momento. Mas ao fazermos isso, ao tentarmos vigiar os passos deste monstro, perdemos mais tempo olhando em seus olhos do que tentando esquecê-lo.
É como se uma aldeia sofresse com ataques de um ogro que pilha, mata e incendeia apenas para raptar as donzelas. Então, para se livrar do ogro, os mais velhos decidem matar todas as donzelas da cidade. Ou seja, terminamos com nossos direitos e deveres para que não voltem a reprimir nossos direitos e a vigiar nossos deveres. A imprensa exagera na cobertura dos fatos, passa por cima de direitos básicos como a privacidade e o livre arbítrio, amparada na máxima da “liberdade de expressão e de imprensa”. Os grandes veículos escolhem lados ao bel prazer e defendem opiniões particulares, deixando de lado o ato de informar, argumentar e fornecer subsídios para que o cidadão tire suas próprias conclusões. Ao primeiro ato de discordância, bradam seu direito à opinião política, estampam em suas capas que “a ditadura está voltando”, e que “novas formas de censura estão em vigor”, eticétera.
Para evitar a repressão, legalizamos a libertinagem. Para impedir a lavagem cerebral, constitucionalizamos a preguiça de pensamento. Para evacuar os medos e traumas, tornamo-nos, nós mesmos, os repressores. Extrapolando o limite de nossas liberdades, avançando sobre o direito alheio e esquecendo de valores cívicos sob a desculpa de que eles são “a lembrança da ditadura”, quando na verdade foi o regime que se apossou de nossos símbolos pátrios e fez deles sua plataforma, seu estandarte e seu cartaz. Fomos criados para amarmos o Brasil ou deixá-lo, e preferimos deixar. Porque este é o tempo do oito e do oitenta. Não existe meio termo.
Este, na verdade, é o maior resquício da Ditadura. Não existe meio termo. Apoiadores dos militares ou terroristas antinacionalistas. Reacionários ou comunistas. Militares opressores ou civis oprimidos. Culpados ou inocentes. Ninguém que ame o Brasil pode sair, e em contrapartida, quem não fica é porque o odeia.
Precisamos compreender que o meio termo também é uma atitude. Precisamos aprender a nos livrar do ogro sem assassinar as donzelas. Mesmo porque, com ou sem donzela, o ogro está à espreita, e sempre estará. Hora dessas, ele encontra outro motivo para pilhar, matar e incendiar.

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