sexta-feira, 8 de abril de 2011

Segurança nas escolas

Eu achava coisa mais chata do mundo usar uniforme. Era um atentado à liberdade de expressão. E à carteira dos pais. A dona Eliane, por exemplo, mal começava o ano letivo ela corria às lojas renovar meu guarda-roupa. Tudo em vão, pelo menos para o turno da manhã. Não importava o quanto eu gostava daquela jaqueta vermelho-ferrari, era obrigatório usar calça azul de tactel, jaqueta e camiseta branca. Saco. E quem não usava, arrá, levava recado na agenda e esperava um período inteiro no pátio, para poder entrar na aula. O que não era de todo mal.

Era maçante chegar ao Iesta e ver todo mundo igual. Aquela imensidão azul de tactel. Mais tarde liberaram a lycra para as meninas, o que, não sejamos hipócritas, melhorou um pouco o negócio, mas ainda assim era aborrecível. Não conseguíamos entender, jovens gênios-que-sabem-de-tudo, como eu e meus colegas, o motivo para aquela aberração. “Uniforme é coisa de preso”, pensávamos, com nossas mentes moldadas a desenho animado. Lembro ainda que, quando atuante no Grêmio Estudantil, liderei uma ampla discussão no recreio sobre o uso do uniforme, pensando até em organizar uma espécie de boicote e protesto pacífico, quando iríamos para a escola trajando uniformes da Perdigão. Não deu certo por questões logísticas, mas a idéia estava ali, mostrando a fertilidade do movimento estudantil da época. E ainda assim era melhor que o de hoje. Mas, no gira-gira do mundo, quando cheguei à faculdade, o que mais sentia falta – fora o pastel da Grá – era a nostalgia do uniforme. O uniforme nos fazia alunos.

Esta tragédia indescritível que aconteceu anteontem, no Rio de Janeiro, me fez perceber, embora já soubesse, o quanto somos vulneráveis à loucura humana. Um rapaz entra numa escola, sai atirando na cara de todo mundo e só é abatido depois de matar doze crianças. As escolas, locais aprazíveis em grande maioria, também são vulneráveis a esta loucura. Apesar do acúmulo de pessoas, lá não há a segurança que existe, por exemplo, em empresas e casas noturnas. Ninguém te revista para entrar na escola. Pode-se levar tanto uma lapiseira como um revólver para a sala de aula. A facilidade é a mesma. E não há culpados para isso. Nenhum governante, nenhum delegado, nenhum diretor, nem em seus mais suados pesadelos, era capaz de imaginar que uma chacina aconteceria dentro de uma escola. Assim, as instituições do ensino vão se virando com o que tem. Aí, o uniforme é uma ferramenta importante para distinguir quem pode entrar e quem deve ser barrado. Apesar de não ter sido questão de identificação, este ataque terrorista no Rio de Janeiro foi eficaz para mostrar uma dificuldade que, graças a Deus, estava passando despercebida no Brasil até então. O aluno também tem parte em sua segurança. A padronização do uniforme não a garante, mas auxilia no monitoramento de quem entra e sai de um colégio.

De resto, é rezar para uma coisa dessas nunca mais aconteça.

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