segunda-feira, 13 de junho de 2011

Republicando: Minhê


Era meio-dia. O intestino grosso já mordiscava o delgado dentro da minha barriga. Sentia fome, claro. Sou gordo. Gordos sentem fome. Geralmente subo pelas escadas, já que são apenas quatro andares e este é o único exercício que costumo fazer durante o dia. Era rotina, antes de subir, avaliar a caixinha do correio. Foi quando ela apareceu. O brilho que seu sorriso irradiava me provocou cegueira momentânea. E ela veio na minha direção. Não havia música no ambiente, mas ela andava como se seguisse uma trilha sonora. Tom Jobim, talvez. Meu coração disparou quando ela disse:

- Oiê!

“Fale algo inteligente! Fale algo inteligente!”

- Opa.

Eu disse opa. Aquele oiê me pegou desprevenido. Foi diferente. Ela não disse “oi”, como se fala para qualquer um. Ela falou “oiê”, com o rabo-de-cavalo balançando e com os trinta e dois dentes aparecendo, e me cegando. E a luz que escapava pelo vitral da entrada do edifício e a iluminava por trás, desenhando sua silhueta, Deus, nem Spielberg conseguiria um efeito-especial daqueles. Ela me conhecia, pelo oiê. Decerto já havia lido meus textos, ou usado o jornal para o piso do carro e, sei lá, visto minha foto de relance. Mulheres assim têm excelente visão periférica. Sorri de volta para ela, fingindo que também a conhecia. O elevador chegou. É claro que eu não subiria mais pelas escadas. Sou gordo, não burro.

Entramos naquele cubículo assaz iluminado. Ela olhou para mim, enquanto tirava os fones do ouvido. Passou a mão no rabo-de-cavalo, enquanto balançava a cabeça. Senti uma pequena palpitação nesse momento, devido ao seu perfume. Ela ali, a centímetros de mim, e eu com este cabelo despenteado.

- Aperta o três pra minhê?

Aperto sim. Aperto Tudo! Faço o que você quiser, eu pensei. Ainda mais com aquele “ê” no final das frases, que me enlouquecia. E o biquinho, então! Minhê, com biquinho, era demais. Estava pronto para convidá-la para um café no quarto andar quando fui lambido pela luz divina do Espírito Santo. A verdade caiu no meu pé. Olhei para ela com o olhar mais maléfico que a escola de teatro me ensinou. Não apertaria.

- Aperte você!

Se calça de lycra tivesse bolso, os butiás despencariam deles. Provavelmente ninguém havia recusado algo a ela, até aquele momento. Fechou a cara e deu um soco no botão, seguido de uma bufada. Saiu do elevador rebolando, o que para mim soou como um “olha o que você perdeu” e foi-se embora.

Imagine. Uma mulher que faz biquinho até para pedir que lhe apertem o botão do elevador, pode tirar tudo de um homem. O que ela fará quando quiser algo realmente importante?

Comigo, ah... Não mesmo.

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