A rodoviária de Caxias do Sul já era suficientemente desconfortável quando se estava sentado, a espera do ônibus, num dos abundantes barzinhos que rodeavam as pistas de embarque e desembarque. Ficava muito pior quando a espera era na fila, em frente a porta de um ônibus que, se sabia, estaria lotado, quente e – muito provável – fedido.
Lá estavam eles: dois Unesul da linha Caxias/Santa Rosa idênticos. Só uma coisa distinguia os dois. Um deles era antecedido por uma longa coluna de furiosos consumidores do serviço de transporte. Mais de trinta, sem dúvida. No outro, apenas um cobrador desocupado esperava eventuais passageiros.
Ao lançar um olhar desesperado para a fila de pessoas, ele só pensava em uma coisa. A melhor notícia do dia poderia ser que sua passagem era para o outro ônibus, o vazio. Junto a um sopro de esperança, dirigiu-se ao cobrador:
- Opa. Tem dois ônibus da mesma linha. Não sei qual é o meu.
Ao conferir o bilhete recém entregue, o cobrador rasgou um cantinho e o entregou de volta:
- O teu é este.
“Ah, sorte. Que bom que está do meu lado!”
Foi entrando. Ônibus semi-vazio. Uma senhora na 5, daquelas que gostam de sentar bem na frente, não se sabe por que motivo. Um casal na 21 e 22. Dois adolescentes na 23 e 24, quase dormindo enquanto dividiam os fones de ouvido de um Mp4. Uma menina bonita quase deitada na 31. Nem percebeu que pensava alto enquanto se aproximava para sua poltrona.
- Trinta e cinco, trinta e cinco. Aqui.
Ela olhou para o estranho que falava sozinho. Acionou a alavanca que fez a poltrona desinclinar.
- Não, não. Pode ficar como estava. Não me atrapalha – disse ele.
- Tudo bem, se não te incomoda... – Ela respondeu.
Olharam-se, ela riu. Depois, ajeitou-se para frente, com os pés na poltrona ao lado, dando pinta de que iria dormir. Ele tirou uma revista da mochila. Literatura de viagem. Uma “Aventuras na História” com Alexandre, O Grande, na capa. Só porque nunca conseguiu dormir em ônibus. Tinha inveja de quem conseguia. Quando o veículo começou a andar, ele já estava absorvido pela leitura de qualquer coisa sobre a inquisição.
Depois de alguns minutos de viagem, cansou-se da leitura. Jogou a revista na poltrona do lado, e se debruçou, fitando a janela. Observou a paisagem por breves segundos, antes de se levantar, para ir ao toalete. Na volta, demorou-se a sentar, somente para observar a menina da frente.
Sinceramente bonita. Magra, cabelos castanhos claros, pele bronzeada. Mas não bronzeada carioca. Bronzeada gaúcha. Dormia sobre os dois bancos, com os All Star apoiados no encosto da frente, como que para evitar os solavancos da estrada.
A essa altura, já haviam chegado em Bento Gonçalves. Quando o ônibus parou, ela acordou-se num sobressalto. “Vai descer aqui”, ele pensou. Mas não. Ela se ajeitou de novo, desta vez em um banco só, e espreguiçou-se, colocando as mãos para trás, por cima da cabeça.
Ele fitou o pulso de miçangas e as unhas curtas, pintadas de rosa. “Bonita mão. Bem cuidada. Não rói unhas. Mas também não as deixa crescer demais. Talvez trabalhe num lugar onde não possa usar unhas compridas”, pensou. Ajustou-se no banco de modo a avaliar melhor a mão da passageira da frente. “As miçangas podem significar infantilidade. Ou podem ser lembrança de alguma viagem. Mas o provável é que seja apenas um estilo alternativo. De quem quer dizer: ‘não me deixam ter unhas compridas, mas ninguém vai me tirar as miçangas!’. Deve ser rebeldia contida”. Depois deste pensamento, riu sozinho ao perceber a situação. Estava mesmo ele teorizando sobre a mão de alguém que nem conhecia, nunca conversara e só tinha em comum o fato de estarem no mesmo ônibus? Ao perceber que sim, balançou a cabeça negativamente e terminou a risada.
A viagem seguia com o ônibus cada vez mais vazio. Ele intercalava períodos de leitura com a observação da paisagem. Ao cruzar a ponte do Rio das Antas, aprumou-se para olhar ao redor. Era um lugar lindo. No banco da frente, a menina acordara propositalmente para admirar o cenário. Levantou-se um pouco. Ele se pegou admirando a lisura de sua pele e a cor de seu cabelo. Talvez percebendo que era observada, a menina desviou o olhar para trás. Deu tempo de ele fechar rapidamente os olhos e fingir que dormia. Ela o fitou por um momento, o que ele viu pela frestinha do olho que conservou aberta. “Deus, que vergonha. Onde é que eu estou com a cabeça, ficar olhando assim para uma desconhecida. Praticamente a comendo com os olhos. O que ela deve estar pensando?”. Ele percebeu que a menina do banco da frente já havia deitado. Não pode esquecer o cabelo. “Liso, fino e castanho. Tom natural, é claro. É fácil perceber que é um cabelo bem cuidado, de alguém asseado com a própria beleza e higiene”. Pode sentir o cheiro de shampoo, quando sentou-se, no momento em que o nariz dele ficou mais próximo da cabeça dela. “Garnier talvez. Seda. Sei lá. Mas é de frutas cítricas, não tenho dúvida”.
Quando pararam em Veranópolis, ele já havia deixado definitivamente a revista e a paisagem de lado, e concentrava-se apenas em uma questão. “Puxo assunto com ela ou não? Como ela vai interpretar a intenção de um estranho dentro do ônibus, tentando conversar com ela? Será que eu seria muito inconveniente? E some-se a isso o fato de ela provavelmente ter notado que eu a observava”. Mas ela também o tinha observado. Será que, naquele momento, ela não estaria pensando a mesma coisa? Todas estas perguntas giravam em sua mente, a ponto de ele quase não notar que ela se levantara e sentara no outro banco, do outro lado do ônibus.
Ao sentar, ela abaixou um pouco a poltrona. O sentido vertical do banco ao lado lhe permitia ver o rosto dela em um ângulo privilegiado. Ao mesmo tempo, podia ver seus pés, esticados sobre o encosto do banco da frente, agora só de meias. Meias brancas e limpas. “Quem tira o tênis no ônibus está seguro de que não tem chulé. Que pezinho pequeno. Adoraria massagear aquele pé”. Os pensamentos já ficavam mais incisivos. Já pensava direto ao ponto. Mas ainda duvidava se tentar uma conversa seria boa idéia.
Já estavam em Nova Prata. Quando o ônibus parou, ela levantou e desceu. “Pronto. Acabou a dúvida. Fim de linha para ela. Pelo menos não vou mais ficar me lamentando de não ter puxado um papo”. Só depois se lembrou dos dez minutos de descanso, praxe dos motoristas dessa linha, ao chegar em Nova Prata. Desceu também.
Fora do ônibus, olhos de felino em busca da presa. Será que desceu somente para o descanso, ou o destino dela era aqui mesmo? Poderia estar no banheiro ou na lanchonete. Ou poderia estar em casa a esta hora. Sem desistir, entrou na lanchonete em busca da menina.
- E o que era pra ti?
- Ah, não. Digo, nada. Quer dizer, pensando bem... Me dá uma Pepsi lata e um pão de queijo.
- Vai levar ou vai comer aqui?
- Levar.
“Acabou. Ela deve estar em casa, já. Deixa pra lá. Não ia dar certo, mesmo”.
Voltou para o ônibus e sentou-se no mesmo lugar, apesar de o veículo estar praticamente vazio. Ateve-se ao seu pão de queijo. Então a viu entrar novamente. Bamboleou pelos bancos, esgueirando-se para não enroscar as ancas em algum encosto. Ao chegar em sua poltrona, olhou-o e esticou o queixo, numa espécie de “oi” mudo. Estava sugando uma caixinha de água-de-coco, e não havia calçado completamente os tênis, deixando uma ponta do calcanhar de fora. Jogou-se na poltrona e continuou a tomar seu refresco, enquanto o ônibus dava ré para sair da rodoviária.
“Água-de-coco é para quem cuida do corpo e da saúde. E eu aqui tomando Pepsi. Ela me cumprimentou. E que despojada, com o calcanhar para fora. É até meio sexy”.
Em Nova Bassano, ela levantou-se e foi ao toalete. Primeira oportunidade para olhá-la de costas. Não teve coragem. E se ela se virasse bem na hora? Morreria de vergonha e colocaria todas as suas chances no lixo. “Mas chances de quê? Não tenho coragem de me apresentar. Sabe-se lá o que ela pode pensar. Talvez tenha até namorado”. Ela voltou, sentou-se e olhou para ele. Ele olhou de volta, mas por pouco tempo, antes de desviar o olhar, evitando encará-la por muito tempo. Retribuiu-a com um sorriso.
- Viagem comprida, não é?
“Ai, minha Nossa Senhora. Ela puxou conversa. Preciso me concentrar. Vou dizer que sim, mas que já estou acostumado, que faço esse caminho sempre. Não. Ela vai pensar que eu só falo de mim. Vou dizer que até que não, desde que se esteja acompanhado, a viagem é rápida. Claro que não! Não posso ser agressivo assim. Vou dizer que sim, é comprida, mas pelo menos o banco é confortável. Não, soaria babaca demais. Ai, o que eu falo”?
- É...
“Eu não acredito! Eu esperei por uma oportunidade a viagem inteira, e quando ela chega, a coisa mais inteligente que eu consigo dizer é: ‘é...’? Eu não mereço mesmo!”
Ao receber a resposta monossilábica, ela virou-se novamente para frente. O coração dele estava apertado. Havia jogado fora uma excelente oportunidade. Precisaria criar outra.
“Tenho que falar com ela de alguma maneira. Saber onde ela vai descer. Casca, Marau talvez? Ou depois? Preciso saber de onde ela é, o que ela faz, se é solteira, se estuda e se gosta de filé a Parmegiana. Qualquer coisa! Tomara que o ônibus sofra um acidente. Assim poderia resgatá-la e carregá-la nos braços. Quem não gosta de um herói? Meu Deus, o que estou pensando? Só posso estar louco”.
Então, lhe ocorreu. A verdade caiu sobre ele como uma bomba. Somente agora havia percebido a gravidade da situação.
“Meu Deus. Estou completamente apaixonado. Esta é a mulher da minha vida. Pode ser a futura mãe dos meus filhos. Preciso falar com ela. Se ela descer antes de eu pelo menos pegar seu telefone, não haverá filhos e eu nunca poderei contar para eles como conheci sua mãe num ônibus da Unesul”.
Mas as palavras não vinham. E ele sabia por que. Aquela não era uma menina qualquer. Era a última. A última pela qual se apaixonaria. A que viveria para sempre junto a ele. Qualquer palavra errada desencadearia uma série de acontecimentos que mudaria todo o seu futuro. Sua vida estava em jogo. O sentido dela estava no banco da frente, e a abordagem deveria ser perfeita. Pensou. Pôs toda sua capacidade intelectual para trabalhar em uma frase perfeita para início de conversa. Ele só precisaria do início. O destino cuidaria do resto. Porém, foi desperto pelo grito do cobrador.
- Passo Fundo!
Não! Não podia ser. Era a parada dele! Era o fim da viagem e ele não havia feito nada! Passara mais de duzentos quilômetros pensando nela, mas fora um covarde. Fracassado. Perdera a mulher de sua vida por pura falta de coragem. De cabeça baixa agarrou sua bagagem e saiu do ônibus. Caiu em si no momento em que pisou no asfalto sujo e engraxado da rodoviária. Como fora idiota. “Mulher da minha vida, num ônibus da Unesul. Tá bom. Eu tenho imaginação fértil, mesmo”. Apressou o passo. Estava anoitecendo e ele ainda precisava pegar o coletivo para casa. Foi aí que uma voz de anjo soou atrás dele.
- Moço! Você esqueceu essa revista em cima do banco.
- Ah é. Obrigado.
- Mora por aqui ou vai pra parada?
- Vou pra parada.
- Eu também.
- Ah, sorte. Que bom que está do meu lado!
- Que?
- Nada, só uma coisa que me ocorreu agora. Tem chiclé?
- Só Halls...
Um comentário:
Eu gostei! Finais subjetivos sempre são os melhores. E o melhor, é inocente e romanticozinho mas não foge do humor.
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