sexta-feira, 10 de maio de 2013

Preservação à força



O índio foi subjugado no exato momento em que as caravelas trouxeram o homem branco. Ao confraternizar com a raça que recém chegava às suas terras, o índio extinguia-se em sua essência.

            Me explico: a mesma coisa aconteceu com os bárbaros. Quando estes entraram em contato com a cultura romana, deixaram de existir. Tornaram-se romanos? Não exatamente. Tampouco eram o mesmo povo que haviam sido antes do contato. Formaram uma terceira comunidade, que mesclava o modo de vida bárbaro com as facilidades típicas dos patrícios romanos. Assim caminha a humanidade desde os tempos em que nem a humanidade existia. A cultura mais forte – e aí não falamos de força física e nem de maior relevância de suas manifestações, mas simplesmente de apropriação de tecnologia – imediatamente subjuga a mais fraca. E nem sempre é por querer.




            Está em nossos genes o desejo de ter uma vida fácil. O ser humano é um animal sedentário. Trabalhamos, sim, mas somente para que um dia possamos descansar em paz, sem nos preocupar em morrer de fome por isso. Quando somos apresentados a algo que nos facilita a vida, que nos permita um minuto a mais de sedentarismo que seja, imediatamente nos sentimos impelidos a possuir este objeto. É genético. É instintivo. E toda a tecnologia existe para facilitar nossa vida. Do contrário, não vingaria.

            Assim, porque o índio que conheceu Cabral ia querer continuar com seu modo de vida tecnologicamente atrasado, se a partir daquele momento poderia ter à sua disposição instrumentos que tornariam sua vida muito mais fácil? Ora, índios têm os mesmos genes que o branco. Eles também se sentem atraídos pelas facilidades. Porque continuariam a usar arco-e-flecha se a arma de fogo facilita a caça?




            Culturas se hibridizam no momento em que são confrontadas. A mais forte vence a mais fraca, muitas vezes, por vontade da mais fraca. Não é pecado de nenhuma das partes. Mas eu juro que não entendo as organizações que insistem em querer preservar a “cultura” do índio, sem que nem o próprio índio sinta este desejo. Índio quer terra? Óbvio que quer. E quem não quer? Mas também quer TV a cabo, carro na garagem e produtos industrializados. E tem todo o direito de querer. Porque é humano e, como tal, quer viver melhor. ONGs e entidades governamentais que defendem a ideia de que o índio viva como vivia antes do contato com o branco estão, na verdade, subjugando o índio mais uma vez, escolhendo no lugar dele. Só se preserva uma cultura intacta, pura, impedindo seu contato com as demais.




            Mas isso é diferente de “manifestação cultural”. Essas manifestações, sim, podem ser cultivadas e transmitidas de maneira pura. Não é preciso viver como nossos antepassados, conservando a carne na banha e dormindo em colchões de palha, para preservarmos as tradições dos imigrantes. Assim como os índios não precisam viver em reservas, longe de todas as facilidades, para preservar as raízes de sua cultura.

É preciso se convencer de que o mundo evolui, e nosso modo de vida evolui com ele. Até mesmo o índio já se convenceu disso. Falta só a FUNAI se convencer.

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